quarta-feira, 27 de abril de 2016

Carta recebida de ouvinte...

            
Tenho, em minha mesinha de cabeceira, um aparelho de rádio. Antes de dormir, tenho o meu ritual de leitura, após o qual, ligo o rádio até que o sono me abrace. Não sou insone. Sou bom de cama. Basta fechar os olhos e dormir. Quando, porém, acordo em meio à madrugada, automaticamente, ligo o aparelho e começo a procurar o que ouvir. Minhas preferências vão para a Rádio Gaúcha e, até pouco tempo atrás, a Rádio Guaíba. Seguidamente, quando quero ouvir boa música, sintonizo em qualquer Rádio argentina ou Uruguaia, onde ainda há senso estético de alta qualidade, e nossos ouvidos não correm o risco de serem atacados por uma debilidade universitária qualquer.
            De início, logo que para cá retornei, lamentava a falta de uma programação intensiva (24h) de nossas rádios locais. Hoje não mais. Colocá-las no ar para quê, ou para quem? Não vejo sentido nenhum em tal prática. Analisando, ao longo dos anos, a programação local, de qualquer uma das emissoras conterrâneas, percebo que são exatamente a mesma coisa. Sempre me ressenti pelo fato, de que nas programações locais, não havia destaque para os acontecimentos de nossa comunidade, a não ser eventuais programas de entrevistas com algum político em voga, ou com os organizadores de algum evento (eu mesmo já fui entrevistado, quando de alguma peça de teatro em estréia). Mas isso é muito pouco.
            Ao retornar da Capital, em meados de março, soube que estava no ar, um novo programa, o DIÁRIO DA MANHÃ, concebido e executado por Jeremias Oliveira, vereador e responsável por um blog de notícias, o NOSSA GENTE ASSISENSE. E pensei: 'oba, tem novidade na área'. E dediquei-me a ouvir a dita programação. Pela vez primeira, tínhamos em nosso rádio, um programa local jornalístico, ágil, crítico, com uma pauta voltada aos anseios da nossa comunidade, substituindo e ampliando a demanda por um jornal que circule em nossa cidade (já tivemos dois e um acabou engolindo o outro e, este um, implodiu de indigestão, completamente cego, buscando luz no fim do túnel obscuro do seu próprio umbigo). Dentro de sua parca estrutura e contingente humano que lhe desse respaldo, o programa foi um marco, em se tratando de programação diária, local, abrangendo os mais variados assuntos e dando voz ativa à comunidade, que se sentia ouvida e atendida em seus desejos mais urgentes. O programa foi um porta-voz de nosso povo, que tinha um local onde explicitar suas necessidades, fazer seus apelos e exigir maiores atenções. Ficávamos ao par da movimentação de nosso hospital, das ocorrências policiais, de reclamações dos cidadãos quanto ao funcionamento, ou não, das nossas instituições públicas; eram abordados os mais variados assuntos, que iam de futebol a festas no interior, sendo levados convidados para discorrer, livremente, sobre o fato que lhe dizia respeito, e, sempre, com um toque de humor e leveza, hábil e responsavelmente conduzido por Jeremias e sua equipe. Como vocês devem ter observado, falo no tempo passado, curiosamente. Porém, a verdade é que a alegria durou pouco. Jeremias foi afastado do programa, certamente por não ter agradado algum 'Saruê" da vida que, sentado em cima do catecismo herdado de Golbery do Couto e Silva do Serviço Nacional de Informações, que cerceou a liberdade de imprensa e da cultura brasileira durante os anos de chumbo, ainda, infeliz e anacronicamente em tempos de democracia, lança mão de seu arbítrio para, em retrocesso aviltante, manter o povo de costas à realidade do nosso dia a dia. E voltamos à mediocridade.
            O programa continua - inclusive com o mesmo título (de quem são os royalties?) porém sem o pulso firme e o discreto charme de seu criador - mantendo alguns quadros fixos, e, no mais, reproduzindo as benesses as quais somos merecedores e devemos ser eternamente gratos, por não arrancar-nos do nosso mundo de sonhos. Eu só peço que acordem a Alice, pois que senão, cabeças continuarão a rolar.


Antonio Carlos 'Dunga' Brunet

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